25 de dezembro de 1939 — Alemanha, Berlim.
 AM0:27……

Antes que me desse conta, o dia já havia virado. Eu erguei o livro em minhas mãos e passei os olhos.
O mesmo ano que poderia ser lembrado pelas futuras gerações como um período de incessante turbulência, prontamente aproximava-se de seu fim — com isso, o novo ano preparava sua graciosa entrada, prometendo triplicar esta turbulência, embora “caos”, verdade seja dita, fosse uma palavra melhor para o que estava por vir.

Quatro meses já se passaram desde a invasão da Polônia. Quatro meses desde que França e Reino Unido emitiram uma declaração de guerra contra a Alemanha. Embora isso possa. alegadamente, provar ser uma retaliação à humilhação e pobreza que nós — a nova geração — sofremos após o pós-guerra, o pensamento de que outro conflito de grande escala possa se desencadear do nada deprime meu coração.

E todos esses velhos veteranos que lutaram nas linhas de frente e sentiram o amargo sabor da derrota em primeira mão fortemente acreditam nisso. Então por que mergulhamos de cabeça em uma nova guerra?

Eu sei da importância de se possuir terras, recursos e alimentos.
Há muitos que passam fome por honra e glória.
E até aqueles que desejam a vitória para lavar a reputação do nome de nossa nação, manchada pela derrota.
Deveriam os eventos de duas décadas atrás, serem gravados na história como a única Guerra Mundial lutada pelos homens de nosso país, Alemanha, lembrados para todo sempre como a nação dos derrotados.

Seja como for, esta é uma escolha a ser feita visando no futuro.
No fim, o presente agora está sendo sacrificado.
Eu percebi que estes podem ser apenas resmungos vazios e infantis de alguém que viu pequenos e preciosos pedaços da vida. Ainda assim, não altera o fato de que tudo isso está complicando a minha vida.

Meu perfeito equilíbrio do “aqui e agora” está sendo dilacerado em pedaços. Pare. Deixe que seja.
Eu sei o quão arrogante e egoísta isto pode ter soado, embora seja assim que eu me sinta…….de fato, me deixaria particularmente muito triste perder a nova publicação do livro que eu estava lendo. Eu não me importo com as circunstâncias do autor ou do mundo, tudo o que quero é continuar lendo minha história.

Sinto que já perdi a linha dos meus pensamentos.

Lotus: “…………”

Eu ouvi o som de passos se aproximando por tás de mim……

Ah, o que é isso? Tenho um péssimo pressentimento, ao menos é o que a minha intuição indica. E, para o meu azar, esse meu sentimento nunca erra.
Eu sabia que deveria ter me retirado ao meu próprio aposento para ler. Sentar em um banco no meio deste saguão me deixou sem lugar para eu me esconder.

Eu sei que esta pessoa não está vindo aqui especialmente por mim, embora não consiga deixar de sentir um formigamento inquietante rastejando pelo meu pescoço. Por não saber de quem se trata, ignorar sua presença provavelmente é a melhor alternativa a ser tomada agora.

Reinhard: “Com licença.”

Mesmo após ter parado próximo a mim e pronunciado tais palavras, eu baixei minha cabeça e evitei olhar em seus olhos.
O homem continuou.

Reinhard: “O Diretor Sievers está disponível?”

Uma voz baixa, porém refinada — mesmo sem olhá-lo nos olhos, é possível sentir que é um homem muito poderoso.
Seu tom tranquilizador contrasta com um eco de confiança, bem como uma definitiva frieza que se espreita por trás.
Um soldado — embora eu também seja um agora — um soldado de baixo escalão se acata diante da presença um oficial do alto escalão.
Ou seja, o tipo de homem que eu não gostaria de me associar.

Reinhard: “Não conseguiste me ouvir? O Diretor—”
Lotus: “Ah, claro. Desculpa, mas ele não está agora.”

Eu abanei de forma grosseira, enquanto respondia. Eu só quero que ele vá embora logo. Se ele desse seu nome, o decoro acabaria me obrigando a ser educado. E isso só complicaria as coisas desnecessariamente. Na verdade, seria melhor para todos se eu nunca ouvisse o seu nome.
Fazê-lo pensar em mim como inferior; alguém que não sabe se portar diante de um comandante, tornaria as coisas mais fáceis. Seja como for, não é como se ele fosse me matar agora.

Reinhard: “Hm, entendi. Não há o que possa ser feito, foi erro meu não tê-lo notificado sobre minha visita.”
Lotus: “Pois é. Se vai embora, a saída é por ali.”

Evitando olhar para ele, eu estendi meu polegar, indicado a saída.

Lotus: “Recentemente o nosso diretor parece estar se encontrando muito com muitos tipos de médicos. Eu os ouvi comentando algo sobre medir crânios ou algo assim.”

Reinhard: “Um plastômetro. Um dispositivo capaz de determinar a hereditariedade Ariana.”
Lotus: “Sim, sim. Então, ele está em um jantar com um grupo de pesquisadores de Estrasburgo……embora eu ache que já esteja um pouco fora do horário para ir jantar. Se tem assuntos a tratar com ele, é melhor ir logo.”

Pois bem, adeus. Eu tentei fazê-lo se retirar com isso, mas este homem estranho se recusou a dar um passo para trás. Pelo contrário, eu consigo sentir o seu olhar perfurando a minha pele.

……Estou começando a ficar com dor de barriga.

Lotus: “Escuta aqui……”
Reinhard: “Ah, esqueça sobre o diretor. Devo perguntar a vós. Levante seu rosto.”
Lotus:  “……………”

Francamente, estou começando a odiar essa minha pequena burguesia.

Reinhard: “Levante.”

Incapaz de ir contra seu tom pressionante, eu relutantemente ergui minha cabeça……

Lotus: “———―”

Fui surpreendido. Eu já imaginava que não fosse um simples soldado, mas só seu feitio já me deixou sem palavras.
Pode soar estranho vindo de um homem para outro homem, mas é a primeira vez que vejo um cara tão boa pinta. Ele deve ser meu superior por uma década, e mesmo assim, ele exibi um misterioso equilíbrio entre juventude e digna maturidade. Alguém como eu e o meu complexo infantil — um atributo que tanto eu quanto meus iguais podem atestar — poderia facilmente perder mais trinta anos em uma tentativa vã de chegar no nível dele.

Rinhard: “Algum problema?”
Lotus: “Não……”

Bem, deixando isso de lado, só de olhar diretamente para ele já está me deixando para baixo. Eu não estava me dando ao trabalho por causa da minha gentileza, mas, se ele fez uma pergunta, eu devo respondê-la pois é o melhor a ser feito.

Lotus: “Nada, não. Então?”
Rinhard: “Ah, você conhece o nome Carl Kraft?”

Lotus: “Carl Kraft?”

Foi uma pergunta tão repentina que tudo que pude fazer foi repetir o seu nome… Se não me engano, ele……

Reinhard: “Um verdadeiro vigarista, posso vos garantir. Ele se juntou ao Ministério da Propaganda recentemente. Ele vive a vida lendo a sorte; conjurando predições para o futuro, refletindo positivamente nossa nação. Mesmo considerando todos os pontos, embora eu entenda as razões por trás de seus atos, permanece o fato de que sua profissão está enraizada na trapaça e falso milagres.”
Lotus: “E?”
Reinhard: “Não acha isso estranho?”

Não consegui entender aonde ele queria chegar e, percebendo que minha angustia, o homem exibiu um leve sorriso agridoce.

Reinhard: “Tudo bem se não entender. Vendo que não o conhece, minha pergunta não pode ser respondida por vós. Entretanto, tenho outra pergunta a fazer. Ocorreu de algum trabalhador daqui ter visitado a igreja para receber certo pacote esta noite?”
Lotus: “A igreja?”

Sem entender, mais uma vez repeti suas palavras. Eu posso ter parecido idiota, mas considerando que não sabia do que se tratava, tal reação era inevitável.

Reinhard: “Comunidade para a Investigação e Ensino sobre a Herança Ancestral — Deutsches Ahnenerbe. Seu dever consiste em coletar tais artefatos, correto? Se vós detém de alguma ínfima informação sobre este assunto em questão, eu ficaria agradecido se pudesse responder-me.”
Lotus: “……………”
Reinhard: “Juraste confidencialidade? Neste caso, nada podemos fazer.”
Lotus: “Não, eu realmente não sei.”

Ao menos, não havia chegado aos meus ouvidos nada na qual eu pudesse responder com certeza.

Lotus: “Mas porque quer saber?”
Reinhard: “Vai saber… É um mistério até mesmo para mim. Eu apenas gostaria de saber.”

O homem deu de ombros ao falar, com um leve ar de escárnio enquanto as palavras saiam de sua boca, embora seu não tom estivesse impregnado com um leve gracejo alegre, mas uma palpável sinceridade.

Lotus: “Você é mesmo estranho.”
Reinhard: “Sim, não posso negar.”

“Às vezes, sinto-me afetado por tal sensação, se assim posso dizer. Apesar que devo confessar que faz apenas cerca de um mês. Eu me deparo com eventos que nunca vi e ideias das quais nunca ouvi; coisas que nunca vi nem ouvi — que não poderia ter ouvido — e penso comigo mesmo; Eu conheço isso.”
Lotus: “…………”
Reinhard: “Certas vezes penso: não, este não é o homem que eu deveria ser. Por acaso vós também já tiveste este pressentimento?”

Mesmo que me pergunte, não há como eu confirmar. Quero dizer, julgando por sua descrição, só poderia ser o efeito de graves delusões dele. Francamente, cheguei perto de dizer para ele ir procurar um médico.
Ele sacudiu a cabeça, certamente tendo sentido meus sentimentos.

Reinhard: “Eu creio ser sã. Não, devo dizer que é isso que eu luto para acreditar. Um lamentável estado mental, por assim dizer.”
Lotus: “Então……”

O que digo para ele? Ele é exatamente o tipo de cara que eu não gosto de lidar. Eu ainda desejo desesperadamente evitar toda comunicação desnecessária com ele, mas, mesmo assim…
Algo me força a agir. Um sentimento de dever, uma vontade. Um sentimento de que isto é algo que eu, e apenas eu, posso fazer.
Ele permaneceu, com sua bela aparência e cabelos loiros, e eu o olhei nos olhos—

Lotus: “Você é sã.”

Eu murmurei, rápido e empático.

Lotus: “Nós estamos vivendo na realidade. Assim como há muitas coisas boas, há também muitas coisas ruins; nós seguimos em frente, sedentos atrás de sonhos que mantemos em nossos corações, nunca realizados.”

A transigência do agora, o efêmero momento que tanto adorei…..uma ânsia de fazer deste milagre esterno. Uma noção infantil, é verdade, mas uma noção a qual não posso descartar. Sabendo que é um sonho que nunca se realizará, minha sede recusa-se a deixá-lo desaparecer.
Assim vivemos, mesmo descontentes, inseguros; sempre vacilando……

Lotus: “Mas não é isso que nos faz humanos?”

Eu fico contente em ser assim.

Lotus: “Nossas vidas nada mais são além de pétalas ao vento; momentos perdidos nos anais do tempo. Não importa o quão bravamente lutemos para os obtermos, a eternidade sempre irá nos iludir.”

Ou seja—

Reinhard: “Viva sua vida ao máximo, sempre de cabeça erguida. Realmente, vossas palavras estão corretas. O homem deve ter sede, deve desejar e ansiar enquanto seu coração bater. Não importa para onde a vida o leve, sua sede não desaparecerá. Mas não há nada de errado nisso, é natural que assim seja. Se existiu algum ser que recusou-se a aceitar este sentimento… tudo o que aguarda por ele é a ruína.”
Lotus: “Se existe um ser assim, acredito que seu próprio nascimento foi um erro da natureza.”

Nós olhamos nos olhos um do outro, mas sem compreendermos a quem nossas palavras se referiam; como se estivéssemos nos reaproximando.
Como se afirmássemos que assim está bom, é assim que as coisas devem ser.
Com tal pensamento, minha próxima pergunta era óbvia.

Lotus: “Qual o seu nome?”
Reinhard: “Heidrych — Reinhard Heydrich.”

Seria mentira dizer que esse nome não me surpreendeu.
Imaginar que o homem com quem me tornei amigo tão de repente seria a venerada besta dourada em pessoa. Não seria estranho s meu pescoço estivesse voando agora.

Reinhard: “Eu não sou tudo que dizem de mim.”

Embora ele — Reinhard — continuou a exibir um sorriso no rosto, de sinceridade, não mera humildade, de que não era uma besta, mas um simples humano.

Reinhard: “Desnuda-o de seus status, e qualquer homem não se difere de seus iguais. É tudo sobre como deve ser, ou melhor, é assim que deve ser. Nós caímos quando atingidos, morremos quando alvejados; é assim que os homens devem ser: vivendo suas vidas até a morte bater à porta, inevitavelmente retornando ao pó de onde uma vez viemos. Ah, eu meramente gostaria que alguém me dissesse isso. Você detém de minha gratidão. A eternidade nos ilude… não podemos nos transformar em fantasmas. “

E assim, Reinhard virou-se e dirigiu-se à sua saída.
De tal maneira encerrou-se nosso encontro do destino. Seja o que for que o destino tenha reservado para o nosso futuro, eu sei que não nos encontraremos uma segunda vez.

Reinhard: “A morte é inevitável à todas as coisas vivas, logo não sou exceção. Assim devo jurar viver e morrer como homem — como um soldado, que assim como muitos, meramente cumpre com seu jurado dever.”

Como se em resposta a isso, eu fechei meu livro. A história havia chegado ao fim, eu retornado à realidade.
Seja qual cor o mundo adquira, não muda a constante de que foi aqui que nascemos, aqui nós vivemos e existimos.
Ninguém jamais deve esquecer desse fato; se o fizermos, seremos para sempre assombrados por nossos sonhos sem fim, ansiando após a eternidade.

Reinhard: “Pois bem, aqui me despeço. Posso perguntar seu nome?”
Lotus: “Reichhart.”

Embora não seja um nome da qual eu tenha muito apreço, pronunciá-lo era a minha maneira de retornar à realidade.

Lotus: “Lotus Reichhart. Bem como você, carrasco de ofício. Bem, apenas as sobras.”

Reinhard: “Oh……”

Naturalmente, Reinhard estava ciente do que meu nome significava. De qualquer maneira, minha família produziu um grande número de execuções famosas no passado, por isso, para alguém como ele, eu devo ser como um distante parente.

Reinhard: “Muito isso explica, devo dizer, embora o mundo considere Johann o mais proeminente praticante de vossa profissão, no entanto, eu o consideraria o candidato mais adequado. Lótus……um ópio que aleija a mente e torna possível esquecer todas as dificuldades do mundo. Se não fosse por Odisseu, iriam repetir a loucura por toda a eternidade.”

Lotus: “É por isso que eu me tornarei Odisseu.”

Irei libertar-me deste ciclo, como uma criança que abandona sua casa para encontrar um novo ccírculo na qual possa se encaixar, um definido por seus próprios termos……Eu percebi a pura contradição dessa teoria mas, no fim, eu acredito que se adeque bem a mim, ao considerar tudo.
Não sou um herói. Eu seria o primeiro a admitir isso, mas…

Lotus: “Sinto que, além do horizonte, existe algo que eu devo realizar. Ou talvez, algo que eu já tenha realizado. Seja como for, eu planejo viver minha vida com isso em mente.”

Lotus: “Adeus, Tenente General. Sieg Heil.”
Reinhard: “Sim, Sieg Heil.”

E então, quando ele estava para fechar a porta, no mesmo instante…

Reinhard: “Sinto-me agora completo. Já não desejo por mais nada. Continuarei a viver sem saber o que o futuro me reserva. Assim eu jurei que seria.”

Ele disse algo que não consegui entender.
……Não… seria algo que eu não entendi? Um redemoinho de inquietantes emoções tomou conta do meu coração, forçando-me a dizer, inconscientemente……

Lotus: “Não foi ruim, foi? O abraço da deusa.”

Eu disse de repente.

Lotus: “Não precisei da sua interferência. Eu venci, lembra?”
Reinhard: “Ah, foi sim. Eu sei.”

Por algum motivo, uma visão que nunca antes vi reproduziu-se momentaneamente diante dos meus olhos.
Não faço ideia do que isso possa significar……mas sinto como se tal troca fosse natural, bem como deveria ser, mesmo sem saber explicar.
Acredito que Reinhard tenha sentido o mesmo.

Reinhard:Frohe Weihnachten. É realmente agradável, sim, eu posso senti-la. Não há dúvidas de que essa é a mesma verdade que uma vez vós pronunciaste.”

E assim o Tenente dourado fez sua saída, junto a uma alusão de ligeiro alívio em seu tom enquanto desaparecia.

Lotus: “……………”

E quanto a mim……

Lotus: “Theresia……”

Por algum motivo, meu coração sentiu uma forte emoção enquanto eu dizia esse nome. A conversa que acabou de terminar estremeceu algo vivo em minha mente — algo que despertou memórias até então adormecidas.
Não, errado. Não é como se eu tivesse esquecido. O lugar para onde devo retornar, bem onde uma pessoa está a me aguardar……

“Japão……?”

A minha realidade agora é aqui, mas a garota que me espera do outro lado do oceano também não é uma ilusão.
Duas realidades, dois eu……se ambos são verdadeiros, então o que eu devo fazer? Minha resposta é óbvia. Eu tenho apenas uma credo a aderir, uma crença para acreditar.

“Viver o agora; isto também é parte do meu efêmero momento.”

“Sim, eu estou feliz com isso. Desculpe por causar problemas a você até o final, mas não se preocupe, eu ficarei bem. Posso pedir apenas para ceder a este tolo devaneio só mais um pouco?”

Minhas palavras, proferidas enquanto levantava-me, não eram direcionadas apenas a mim mesmo; eram uma mistura de desculpas e gratidão, direcionadas a ela — aquela que passou a ser conhecida como deusa.

“Eu juro viver neste mundo, nesta realidade e vê-la até o fim. Assim como ele fez.”

“Tenho certeza que este é o meu dever.”

Seguindo a deixa de Reinhard, eu também saí à noite da rua.
Meus passos estão leves.
Para que Lotus Reichhart, em sua jornada, testemunhe com seus próprios olhos o efêmero momento que ele tanto ama…
…sabendo que não há mais o que se lamentar.