Afinal, o que foi a causa de tudo?

A amofinação desconhece limites. Seja qual for a época, qual forem as circunstâncias, ninguém poderia afirmar que não desejava nada na vida, nem mesmo podemos dizer que se sentia completamente satisfeito com a forma como tudo estava.
Porque essa é a natureza humana.
Tanto agora, como no passado, e bem como no futuro que está para vir……foi sempre a avidez e a insaciável curiosidade os responsáveis pela definição da história da humanidade.
Embora isso não possa ser considerado algo ruim. Sem a ganância para atuar como força motora do homem, as pessoas ainda continuariam como macacos, incapazes de darem o primeiro passo à evolução.

Por isso ela nunca negou. É difícil privar-se de tais emoções como o descontentamento, a insatisfação, o medo e a fome — sem elas o homem não seria capaz de sustentar-se.

Ela sabia disso, sabia mais do que qualquer um.
Ela entendia tanto a si, quando a natureza humana.
Ela pensava que já sabia tudo sobre isso.

Porém, ela se permitia divagar sobre isso.

Mais do que antes, e ainda mais, mais alto e cada vez mais alto…..esse era o desejo para qual os humanos se doavam — a cristalização de poder capaz de fazê-los voar; o poder concedido a eles para criar as asas da invenção e aspiração. Uma oração — bênçãos e energias positivas.
Entretanto, humanos não são assim tão fortes. Não, não há dúvidas que dentro deles reside a escuridão.
Como cara e coroa — dois lados de uma mesma moeda. Enquanto houver um lado positivo, haverá sempre um lado negativo por trás.

Ou seja……

Garota: “Por que sempre eu……?”

Se há asas que podem libertá-los do padecimento da realidade, então haverá sempre covas esperando pelos desafortunado. Enquanto existirem aqueles que focam-se em criar asas, outros dedicam suas vidas para pensar em como fazê-los cair.

Descontentamento e insatisfação — algo que todos carregam consigo, por isso a vida do homem é olhar para a mais alta e conquistá-la, sempre havendo uma forma de fazer isso, mesmo que asas não tenham sido concedidas.

A forma mais simples……esta é mais uma manifestação da avidez humana, uma conceito que dá origem a sua fome.
De forma simples, pode-se ser compreendido como inveja — o desejo de puxar para baixo aqueles mais afortunados que você, arrastando-os para a cova onde você reside, afogando-os na escuridão da marisma.

Com isso eles são preenchidos pela ilusão de que são iguais ao até mesmo superiores aos outros.

Para aqueles que se recusam a se esforçarem para aprender a voar, esta é a forma mais fácil deles sentirem-se grandiosos.
Esse é mais um dos instintos primitivos dos seres humanos. É um meio improdutivo, mas também uma forma lógica que acabarem com seus medos — parte de sua natureza.

Sim, faz parte de todos querer sempre atrapalhar os outros.
Tais atos e ideologias são algo que não podem ser eliminados.

E de tal forma, mesmo os sereis mais inferiores são capazes de arquitetar tragédias baratas.

A vila em questão localizava-se em uma região montanhosa, em uma área rural do interior como qualquer outras. Seus habitantes eram pessoas simples e ordinárias, vivendo suas vidas com um ubíquo descontentamento entre as pessoas daquela era.
A tolice deles equiparava-se a pobreza dos mesmos — mais preocupados com qual seria a previsão do tempo do dia seguinte do que aprenderem a ler e escrever — assim era esta população de fazendeiros mundanos.

Ou seja, uma comunidade isolada como qualquer outra.
De acordo com o ponto de vista, eles eram aqueles que constituíam a camada mais baixa da sociedade, capazes de manter sua estabilidade por nunca terem sido expostos àqueles melhores que eles — aqueles capazes de voar. A igualdade era a supremacia que reinava entre eles.

Eles, incapazes de voar, juntava-se para olhar para cima e reclamar. Eles compartilhavam o mesmo descontentamento.
E se algum dia aparecesse alguém que tentasse voar, eles o agarrariam e puxariam para baixo.

Este lugar era uma pequena e perfeita prisão estagnada.

De quem é a culpa? Qual o problema? O que eles faziam de melhor era culpar os outros — julgá-los e impor neles seus infortúnios. Eram sempre aqueles sem asas os que possuíam mais facilidade para reclamar daquilo ao seu redor.
Consequentemente, aqui qualquer um poderia colocar a culpa na natureza da realidade, ou desistir e aceitar o mundo da forma como ele é. Seja o que fosse, o ganho pela elucidação de suas insatisfações e infortúnios era mínimo.

O motivo podia ser qualquer coisa.

Garota: “Eu amo ser linda.”

Foi seu sangue aquilo que fez com que a beleza da garota fizesse nascer uma fenda entre ela e os agricultores.
Ou foi sua vaidade por nunca esconder isso?
Foram inadequados todos os homens que ela recusou?
Foram todas as garotas sem atrativos que a invejaram?

Seja o que for, isso pouco importa. Seja como for, a garota era diferente de todos os outros — uma única verdade que se podia afirmar.

Garota: “Mas o que foi que eu fiz?”

A garota nunca divertiu-se sendo pretensiosa, nunca menosprezara um único ser. Ela unicamente gostava de ser linda e adorava tudo o que era belo — idolatrava o conceito do glamour.
Meramente isso, era apenas isso. Ela escolheu o mais adequado homem entre os seus pretendentes, e deu a ele sua mão. Logo após, ela meramente buscou ser uma boa esposa à sua segunda metade. Porém, os homens não deixaram de importuná-la, e as mulheres nunca pararam de invejá-la. Não importava suas ações ou personalidade, ela tornou-se alvo de muitas pragas, as quais sempre ignorou.

Porém, ela não percebeu que seu marido estava cada vez mais cansado dessa vida.
Ele passou a duvidar do amor de sua esposa, tornando-se cada vez mais paranoico.

Se houvesse uma única palavra para descrevê-la, seria descuidada.
A garota não percebeu que tudo sobre sua vida — da ação mais insignificante até as mais cruciais — estava sob o olhar de curiosos.

Se ela desse uma oportunidade, eles iriam agarrar seus tornozelo e puxá-la para o fundo. Ela não conseguia perceber que estava quebrando as leis não escritas daquela comunidade secular. Ela estava simplesmente sendo descuidada.

Certo dia, ela visitou um de seus vizinhos para pedir leite, mas aconteceu da vaca adoentar-se no mesmo dia.
Uma mera coincidência; um acontecimento trivial. Porém, em uma era de superstições desenfreadas, isto foi mais do que o suficiente para puxá-la para as profundezas do abismo.

E com tamanho fanatismo tempestuoso, as cortinas do julgamento das bruxas se abriram.

Garota: “Por que isso está acontecendo……?”

Ela nunca esqueceria o rosto extasiado daqueles mulheres.
Os desagradáveis sorrisos dos homens, irrisórios e distorcidos, perfuraram seu peito.
E além deles, ah, de todos eles, o rosto do marido na qual ela jurou devotar sua vida.
A face que se acostumou a sussurrar em seu ouvido declarações de amor com um sorriso envergonhado, agora relaxava aliviada, como se houvesse se livrado de um fardo.

Foi neste momento em que Anna Mariea Schwägerin……passou a compreender tudo.

E assim era.
Abjetos, insignificantes, imundos e covardes.
Ou seja, eram assim os humanos.
Sendo assim, qual razão pela qual ela deveria preservar sua radiante pureza.

Anna: “Isso não existe.”
????: “Sim, não tem como existir.”

O que a esperava após sua prisão nada mais era do que uma farsa.
Homens a despiram com a justificativa de procurar por sua pela marcas de uma bruxa, estuprando-a durante o resto do dia. De tal forma, as feridas de sua violação tornaram-se o sustento da acusação de que ela possuía um pacto com a cabra negra Baphomet. Ela foi convenientemente inserida na narrativa criada por eles.

????: “Eles meramente estão sendo eles mesmo. Ao menos eles compreende a vida melhor do que você compreendia até poucos dias.”

Enquanto passava seus últimos dias em uma cela escura……um homem dizendo-se ser um confessor veio para ouvir seus pecados.
Ele olhou para a desesperada e enfurecida bruxa ensandecida com menosprezo.

Confessor: “A revelação finalmente agraciou sua mente.”

Ele então riu……ou foi o que ela pensou.

Confessor: “Você é ainda mais linda embaciada, senhorita bruxa.”

Por algum motivo que não sabia explicar, ela não conseguia lembrar nem do rosto nem da voz dele.
Como se ele fosse uma sombra por detrás da cortina iluminada.
Mais grossa do que qualquer outra que já havia visto, uma parede tão alta que ia além do senso comum — como se ela fosse uma formiga na qual o campo de visão não é capaz de discernir os contornos de um humano acima delas.

Um demônio? Um Anjo? Não, nada disso — o que seria então?
Ignorando a letargia da garota, a sombra seguiu a falar.

Confessor: “Para ti, que chafurdou-se na impureza; a pureza nada mais é do que um devaneio — descarte-a, e assim todas as portas devem se abrir. Não importa a era, uma singular escolha é capaz de causar a convergência, abalando as fundações do cosmo. Enquanto apenas continuar sentada, presa às correntes do isolamento, nada será capaz de aprender ou realizar.”

O homem começou seu solilóquio, aparentando não esperar por uma resposta ou compreensão.
Falando apenas por querer falar, ele continuo seu monólogo unicamente por agradar-se com seu próprio tom.

Sim, nenhum humano buscaria continuar uma conversa com uma formiga.

Confessor: “Tudo neste mundo detém de seu próprio lugar. Aqueles nascidos na escuridão do pântano devem amaldiçoar e agarrar para as profundezas de sua marisma aqueles que reluzem. Assim são as pessoas, e está muito além de mim julgar se suas ações estão erradas. Como se sente ao cair, senhorita bruxa? Não é uma sensação tão ruim assim, é? Assim como há estrelas no céu, há também estrelas na terra — assim sendo, como uma estrela da terra, deves vestir-se com o glamour dessa impureza — tal qual assim deve usurpar do brilho de outrens, tornando-se a rainha das sombras. Uma vez que caí, estrela alguma é capaz de escalar à abóbada do céu.”

Ela não foi capaz de entender o que o homem estava dizendo, tampouco fez questão de entender.
Todavia, uma única coisa ela compreendeu; ele estava tentando guiar o seu caminho.
Ele estava tentando transformar sua existência em algo completo.
Não era mais do que uma brincadeira, um mero capricho para seu próprio entretenimento.

Diante de seu incessante fastígio que o torturava, em ocasiões extremamente raras, ele descendia à Terra na tentativa de amenizá-lo.

Por isso……

Anna: “Você……matou todos.”
Confessor: “Pois bem, parece que o lodo fluiu até aqui.”

Vindo do teto daquela prisão, por de trás do homem, ela viu gotas de sangue pingando, e logo assimilou que todos naquela prisão havia afundado na marisma do inferno antes dela.
O torturados, o executor, e até mesmo os sacerdotes morreram com orações vazias em seus lábios.
Todos, todos eles, afundados em poças formadas pelo próprio sangue.
Este era o fundo de toda a contaminação.

Confessor: “Farás o que, senhorita bruxa?”

A sombra do homem tremeluziu ao questioná-la.

Confessor: “Irá tudo acabar no fundo dessa marisma?”

Iria ela se afogar no sangue daquela marisma, tendo sua vida chego ao fim na forma de um miserável humano?

Confessor: “Ou quem sabe……”

Ela logo já havia decidido sua resposta.

Confessor: “Estou lhe dando uma escolha? Como será?”
Anna: “Eu——”

Chafundasse na impureza e as portas para ti devem se abrir.
Não importa a era, uma singular escolha é capaz de causar a convergência, abalando as fundações do cosmo.

Confessor: “Enquanto apenas continuar sentada, presa às correntes do isolamento, nada será capaz de aprender ou realizar.”

Ah, sim. Isso mesmo.
Eu não quero me afogar, mas também não conseguirei voar novamente.
Por isso devo me tornar uma estrela da terra — ser aquela capaz de reinar sobre este pântano abominável.
Nunca mais irei tratar as pessoas como iguais.

Anna: “Eu quero puxá-los para baixo.”

Sim, assim que deve ser, é o que devo fazer. Todos, todos, tudo e a tudo——

Anna: “Eu amo coisas lindas.”

Com minhas mãos, eu irei agarrar todos os corpos celestiais e os arrastarei para baixo.
Tudo e a todos que brilham, eu irei afundá-los na sombra do meu pântano.

Confessor:“Esplêndido.”

Afinal, à sua frente encontrava-se uma sombra que certamente devia se encontrar muito distante dali.
E um dia, ela certamente irá——

Anna: “Eu quero me tornar como você.”

Assim como ele, ela quer submergir todos..
Diante daquela interessante anátema, a sombra exibiu seu sorriso……

Confessor: “Pois bem, permita-me orar para que sua ventura não seja em vão. Que sua jornada seja deleitante, jovem bruxa do ventre da marisma.”

“Poucos são as existências capazes de compreender-me. Que sua corrupção torne-se a escada de sua ascensão — e quem sabe assim seja capaz de discernir minha forma, ou quem sabe……”

Isso era tudo que sua memória guardou sobre ele.

Momentos depois, sua cela foi lavada por uma tsunami de sangue, e quando recobrou sua consciência, ela estava finalmente livre.
Dominada por uma alegria não diluída, ela retornou para a vila em que nasceu e a atacou — não permitindo que um único escapasse.
As mulheres que dela riram, os homens que a ela dor causaram, e até mesmo seu próprio marido — ela foi puxando todos.
Não se preocupem, não precisam ter medo. Tudo vai ficar bem, nós ficaremos juntos para sempre.
Eu amo ficar junta de todos vocês, irei consumir todos em minhas densas sombras.

Sim, assim ficaremos juntos para sempre. 
Deixarei que todos se afoguem param ficarem junto comigo — no mesmo nível que eu.

Alegrem-se, não é o que sempre quiseram? Afinal sempre fizeram o mesmo comigo.
Irei protegê-los para todo o sempre.

Anna: “Ahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha————―”

Esta é uma história de duzentos e trinta anos atrás.
Um mago que se autoproclamou para ela como sendo um confessor. Foram precisos quinze anos para ela compreender seu intricado poder.
Mais dez anos até que ela desenvolvesse um feitiço capaz de interromper o envelhecimento do seu corpo físico. Tudo em prol de ver aquele homem mais uma vez — ela não podia se permitir morrer tão cedo.
Assim ela passou a procurá-lo, eu continuou a procurá-lo, correspondendo a um período de oitenta anos humanos, onde virou o mundo de ponta cabeça.
Porém, ela não conseguiu encontrá-lo. Afinal, ela sequer tinha memórias sobre seu rosto ou sua voz… é possível que tenha o encontrado sem sequer perceber. Tal resultado não seria impensável, considerando que ela ainda estava muito distante comparando-se com os poderes dele.

Mas justa mente por isso que ela negou tal noção. Ela não podia mais dizer que era aquela mesma jovem garota do passado… ela já havia se tornado experiente e construído seu nome no mundo da feitiçaria. Ela podia se orgulhar de ser uma das poucas pessoas a ter transcendido os cem anos da vida humana.

Tenho certeza que ele já morreu. Certamente deve ter sucumbido ao instinto de autodestruição que assombra aqueles que viveram por tanto tempo.
Embora isso seja decepcionante.
Não ter sido capaz de terminar o que comecei.

Eu queria ao menos poder consumir ele caso pudesse encontrá-lo mais uma vez.

Mas se ele se foi, não há o que fazer.
Se morreu, ele nem devia ser grande coisa mesmo.
Convencendo-se com seus próprios pensamentos, a agora proeminente proeminente bruxa Anna Schwägerin, abandonou sua busca e voltou para sua terra natal na Alemanha.

Não para fazer algo em especial… nem para procurar por algo em especial.
Ela passou outros vinte anos sem um objetivo.
Para ela, que não tinha mais o que fazer; que renasceu da ânsia de puxar para baixo os outros — agora, tendo transcendido e chegado ao cume, já não encontrava mais pessoas para puxar.

Ah, mas foi então que, no ano de 1939, que ela passou a ruminar: poderia essa estagnação ser o berço da autodestruição?
Ela mais uma vez encontrou-se com um pilar diferente… e seu karma a fez relembrar profundamente sua natureza como uma estrela da terra.

E assim, ela se encontrou com “ele”……
Na mesma situação, ela mais uma vez se encontrou com ele……

Anna: “Sério… por que ficar lembrando disso agora?”

Rusalka Schwägerin riu de si mesma com um sorriso autodepreciativo, e logo se desfez daquela incoerente reminiscência.
Afinal, ela não gostava de introspecção prolixas como esse. Ela preferia aproveitar o presente, fazendo o que bem entendesse sem se preocupar muito.

Rusalka: “Qual o problema?”

Ela meramente desejava puxar os outros.
Fazer com que se afogassem.
Ela apenas fazia jus ao seu nome — Bruxa da MarismaRusalka.

Rusalka: “Então, vamos acabar com isso logo.”

Sozinha no telhado do hospital, as sombras debaixo de seus pés — o pântano da corrupção — estendiam-se ao seu entorno.
Bem como quando usou seus poderes pela primeira vez, ela engoliria qualquer um e o mataria em um piscar de olhos. A simplicidade de seu trabalho a fez bocejar… mas certamente já estava mais do que provado que seria o bastante para abrir a quarta Swastika.

Ela sabia que ninguém iria atrapalhá-la. Afinal, ela fez questão de que isso não acontecesse.

Rusalka: “Desculpa, Theresia-chan, mas eu nunca cheguei a dizer que faria as coisas de forma que se adequasse às suas circunstâncias.”

Com uma desculpa forçada, no instante seguinte——

Rusalka: “Mas posso prometer uma única coisa. Parte da Távola Redonda Obsidiana se afogará essa noite. Apenas seis restarão —— e eu colherei a recompensa.”

O putrefato pântano da corrupção —— Vorazes sombrasNachtzehrer —— começou consumir o hospital.